SUFamília Sant Unioni
História da família

A revolta da Hospedaria de Juiz de Fora

Em novembro de 1891, os imigrantes presos na Hospedaria Horta Barbosa, em Juiz de Fora, se revoltaram. A casa estava lotada, havia varíola e faltava comida. Seis anos depois, em 1897, três famílias desta árvore passaram pela mesma Hospedaria: os Santunione, os Bosi e os Cantamessa. Elas não viveram a revolta, mas passaram pelo mesmo lugar e pelo mesmo sistema. Sobre a imigração para o café, ver também Italianos no café depois da Abolição.

Livro de "Matricula Geral dos immigrantes alojados na Hospedaria HORTA BARBOZA em Juiz de Fóra", com entradas de 30 de janeiro de 1892. Arquivo Público Mineiro, via Wikimedia Commons, domínio público (Public Domain Mark 1.0).

Resumo

  • A Hospedaria Horta Barbosa recebia os imigrantes que iam do porto do Rio para Minas. Eles ficavam ali até um fazendeiro os contratar.
  • Em 7/11/1891 houve um motim. Segundo o historiador Paulino de Oliveira, havia cerca de 1.300 pessoas na casa, muitas com varíola, e faltava carne.
  • A Hospedaria teve outros problemas: lotação muito acima da capacidade, poucos cuidados de higiene e uma epidemia de cólera em 1894–1895.
  • Nossas famílias chegaram em 1897, seis anos depois da revolta. Os Santunione e os Bosi ficaram 9 dias; os Cantamessa, 6 dias.
  • Nenhum documento liga nossas famílias à revolta. Elas só passaram pelo mesmo lugar, mais tarde.

A Hospedaria Horta Barbosa

  • A Lei Provincial nº 3.417, de 26/08/1887, mandou criar em Juiz de Fora uma hospedaria de imigrantes e uma Inspetoria Geral de Imigração. Fonte: Bertante, dissertação UFJF, 2017, p. 26.
  • Funcionou a partir de agosto de 1888. Foi a maior e mais duradoura hospedaria de Minas. Fonte: MUVIT-MG.
  • Juiz de Fora ficava no meio da zona do café e ligada ao Rio por estrada e ferrovia. Por isso a escolha. Fonte: MUVIT-MG; Reznik e Fernandes, revista História, 2014.
  • O imigrante desembarcava no Rio, ia de trem até Juiz de Fora e esperava ali o contrato de trabalho. A estada devia ser curta. Fonte: Bertante, p. 26–27.
  • O livro registrava quem entrou, a família, a idade, a profissão, o contratante, a fazenda, o município e a data de saída. Fonte: Grizendi, Ponte entre Culturas, 2019.
  • Ficava no atual bairro Santa Terezinha, onde hoje está o 2º Batalhão da Polícia Militar. A Tribuna de Minas diz que o casarão foi demolido em 1972. Fontes: Folha JF; Tribuna de Minas, 2019.

As condições

  • A Hospedaria às vezes abrigou 2.000 pessoas. A capacidade era calculada em 400 a 600. Fonte: Bertante, p. 27, citando Maraliz de Castro Christo (2000).
  • Com a superlotação faltavam leitos e higiene. Isso ajudava as doenças a se espalharem. Fonte: a mesma.
  • O jornal italiano Il Bersagliere publicou denúncias sobre o estado dos imigrantes no local (edição de 05/03/1892). Fonte: Bertante, p. 27, nota 70.
  • Já em junho de 1889 o serviço foi suspenso, por más condições denunciadas ao presidente da província. Fonte: Cantoni e Machado, "As hospedarias", com base nos livros da Hospedaria e em Norma de Góes Monteiro (1994).

A revolta de novembro de 1891

  • Quando: 7 de novembro de 1891.
  • Quantos: cerca de 1.300 pessoas alojadas, muito acima do ideal. Outra fonte dá 1.302 estrangeiros, a maioria italianos.
  • Por quê:
    • Muitos estavam com varíola. A Hospedaria ficou praticamente isolada para a doença não se espalhar.
    • Com o isolamento, o abastecimento falhou. Faltou comida, sobretudo carne.
    • Os empregos prometidos demoravam a aparecer. A espera, que devia ser de poucos dias, se alongava.
    • Havia fome, sede, frio, mau cheiro, pouco banho e brigas entre famílias por espaço.
  • O que aconteceu: os imigrantes fizeram um motim e exigiram sair. Queriam ir a pé até a Estação Mariano Procópio e pegar o trem para fora de Juiz de Fora. Segundo o Diário de Minas, houve gritos, intervenção da polícia e feridos.
  • Como acabou: a ordem foi restabelecida. Parte dos trabalhadores foi então mandada para Juiz de Fora e outros municípios da Zona da Mata.
  • Fontes: Folha JF, 04/01/2026, que se baseia no historiador Paulino de Oliveira; Wilson Cid, Diário de Minas, 08/02/2025.
  • Cuidado com as fontes. As duas são matérias de jornal, não estudos acadêmicos. Não achei a notícia original nos jornais de 1891, nem a página exata do livro de Paulino de Oliveira. Os detalhes da polícia e dos feridos vêm só do Diário de Minas.
  • Há também uma dúvida de datas. Cantoni e Machado dizem que, pelos livros da Hospedaria, ela só voltou a funcionar normalmente em 1892. Isso não bate com 1.300 pessoas lá dentro em novembro de 1891. O livro da imagem acima, porém, já mostra entradas em janeiro de 1892.

Depois da revolta: cólera e fim

  • Em dezembro de 1893, uma epidemia no Vale do Paraíba parou os trens da Central. Os imigrantes de Minas ficaram retidos na Ilha das Flores, e 630 foram para a Hospedaria do Pinheiro (RJ). A epidemia chegou à Hospedaria mineira, e os fazendeiros pararam de contratar colonos que pudessem estar infectados. Fonte: Cantoni e Machado.
  • Em dezembro de 1894 o cólera se espalhou pela cidade e pela Hospedaria. Os padres redentoristas registraram lotação acima da capacidade, um só médico, falta de enfermeiros, de remédio e de lugar para isolar os doentes. Um túmulo coletivo no cemitério municipal guarda 94 imigrantes italianos mortos na epidemia de 1894–1895. Fonte: Tribuna de Minas, 2019, citando a historiadora Valéria Leão Ferenzini.
  • Com a crise do café, Minas suspendeu a subvenção à imigração em 1897. Fonte: Grizendi, 2019, citando Giroletti (2015).
  • A data do fechamento varia conforme a fonte: 1900 (Giroletti, via Grizendi), 1906 (Bertante, citando Mônica Ribeiro de Oliveira) ou demissão do pessoal em 1902–1903 (Cantoni e Machado).

Na nossa família: 1897

As três famílias entraram depois da revolta (1891) e depois do cólera (1894–1895). Chegaram no fim da imigração paga por Minas.

Santunione e Bosi: vapor Colombo

  • O vapor Colombo chegou ao Rio em 23/09/1897, vindo de Gênova. Dois dias depois, em 25/09/1897, os passageiros entraram na Hospedaria, "por conta do Governo".
  • Santunione (família nº 100): Henrique Santunioni (Enrico, 22 anos), a mãe Domenica Caselli (55) e o irmão Federico (17). Livro SA-925, pág. 21.
  • Bosi (família nº 22, matrículas 279 a 285): Antonio (43), Rosa (31), Maria Borges Santunioni (Maria, 11), Giovanni (8), Caterina (5), Francesco (4) e Albino (2). Livro SA-925, pág. 20. Naturalidade: "Portico" (leitura provável; talvez Portico di Romagna, em Forlì).
  • As duas famílias foram para o mesmo lugar. Ambas foram contratadas por João José de Miranda, para a Fazenda Miranda, em Manhuaçu, lavoura de café. Ambas saíram da Hospedaria em 04/10/1897. Ficaram lá 9 dias.
  • Ou seja: Henrique e Maria não só vieram no mesmo navio. Passaram os mesmos 9 dias na Hospedaria e foram juntos para a mesma fazenda. Isso explica bem como se conheceram, mas o encontro em si não está documentado.
  • Fontes: Arquivo Público Mineiro, base "Imigrantes" (ficha Bosi, cid=13903; imagem; ficha Santunione, cid=13920). A ficha do APM lista só 4 filhos dos Bosi; a imagem do livro mostra também o Albino.

Livro de matrícula da Hospedaria de Imigrantes de Juiz de Fora, 1897, "vindos pelo vapor Colombo, por conta do Governo", pág. 20. No alto, a família Bosi, com a menina Maria; à direita, o contratante João José de Miranda, Fazenda Miranda, Manhuaçu, café, saída em 4-10-97. Arquivo Público Mineiro, livro SA-925, imagem 1729; documento de 1897, domínio público.

Cantamessa: vapor Espagne

  • Giacomo Cantamessa (54), Eufrosina Baldis (43) e 8 filhos entraram na Hospedaria em 16/12/1897, vindos no vapor Espagne. Família nº 106, livro SA-925, pág. 167.
  • Foram contratados pelo Barão de São Geraldo, para a Colônia Antonio Carlos, em S. José d'Além Parahyba (leitura provável). Saíram em 22/12/1897: ficaram 6 dias.
  • Depois a família foi para a região de Manhuaçu e Durandé.
  • O filho mais velho, José Cantamissa, ficou na Itália. Veio por volta de 1913–1914 com a filha Teresa Cantamissa Sant Unioni. Não há registro dele na Hospedaria, que a essa altura já tinha fechado.
  • Fonte: Arquivo Público Mineiro (ficha cid=16126; imagem). Registro completo na nota do Giacomo Cantamessa.

O que isso diz sobre a vida deles

  • Não estavam lá na revolta. A revolta foi em novembro de 1891. Nossas famílias entraram em setembro e dezembro de 1897. Nenhuma fonte liga essas famílias a motim, varíola ou cólera.
  • Esperaram pouco. Em 1891 a espera se arrastava. Em 1897 nossas famílias ficaram 6 a 9 dias e saíram já contratadas.
  • Passaram pelo mesmo sistema. O fazendeiro escolhia a família ali mesmo, e ela seguia de trem para a fazenda. Era esse o objetivo da Hospedaria: abastecer o café de braços.
  • Chegaram no fim. Minas cortou a subvenção em 1897 (ou 1898, conforme a fonte). Nossas famílias vieram no fim da imigração paga por Minas.
  • Não sabemos como estava a Hospedaria em setembro e dezembro de 1897: se cheia, se havia doentes. Para saber, seria preciso ler os jornais da época.

Fontes

Perguntas em aberto

  • Achar a notícia da revolta nos jornais de novembro de 1891 (por exemplo O Pharol, de Juiz de Fora) na Hemeroteca Digital. O site não abriu daqui em 31/10/2026.
  • Ler o trecho original de Paulino de Oliveira, História de Juiz de Fora.
  • Ver nos jornais de setembro a dezembro de 1897 como estava a Hospedaria quando nossas famílias passaram.