SUFamília Sant Unioni
História da família

Italianos no café depois da Abolição

Logo depois da Abolição, em 1888, centenas de milhares de italianos pobres vieram trabalhar nas fazendas de café do Brasil. As duas famílias italianas desta árvore, Santunione e Cantamessa, chegaram assim em 1897. Sobre a origem pobre e enjeitada da família, ver também Enjeitados e a roda dos expostos e Sobrenome Sant Unioni.

Colono num cafezal da Fazenda Matto-dentro, Campinas (SP). Cartão-postal da série "As Grandes Culturas do Estado de S. Paulo". Acervo do Museu Paulista da USP, Wikimedia Commons, domínio público.

Resumo

  • Com o fim da escravidão (Lei Áurea, 13/05/1888), os fazendeiros de café precisavam de quem trabalhasse na terra. O governo pagou a viagem de famílias europeias para isso.
  • A falta de braços começou antes de 1888, e outros motivos pesaram também: a pobreza na Itália e o desejo da elite de "branquear" a população.
  • Os italianos não eram escravizados. Eram trabalhadores livres e mal pagos, presos muitas vezes a dívidas e contratos ruins. Muitos foram embora da fazenda ou voltaram para a Itália.

Por que o Brasil queria imigrantes

  • O tráfico de africanos foi proibido em 1850, a Lei do Ventre Livre veio em 1871 e a Abolição em 1888. A cada passo ficava mais claro que a escravidão ia acabar.
  • O café era o principal produto do país. Os fazendeiros de São Paulo e da Zona da Mata mineira pressionaram o governo para trazer mão de obra.
  • A imigração em massa começou por volta de 1887. Entre 1887 e 1902 chegou cerca de 1 milhão de italianos, uns 60 mil por ano. Antes eram uns 10 mil por ano.
  • Fonte: Revista Perseu (Fundação Perseu Abramo).

A passagem "por conta do Governo"

  • O Decreto 528, de 28/06/1890, deu passagem paga pelo Governo Federal às "familias de agricultores". Preferiam famílias inteiras, que se fixavam mais na terra do que homens sozinhos.
  • O mesmo decreto, no Art. 1º, abria a entrada a todos, "exceptuados os indigenas da Asia, ou da Africa", que só podiam entrar com autorização do Congresso.
  • Fonte: Decreto 528/1890, Câmara dos Deputados.

Branqueamento

  • Parte da elite via a imigração europeia como um jeito de "melhorar" a população, ou seja, de torná-la mais branca. Era uma ideia racista, comum na época.
  • Por isso o governo pagava a viagem de europeus e, ao mesmo tempo, fechava a porta a africanos e asiáticos (Decreto 528, acima).
  • Os libertos, em geral, não receberam terra nem apoio. Ficaram de fora desse esforço.
  • Fonte: Wikipédia, "Branqueamento racial".

A pobreza de quem partia

  • A Itália do fim do século XIX tinha muita gente sem terra. Os camponeses trabalhavam terras de outros como colonos (meeiros), braccianti ou giornalieri (diaristas), e muitos não sabiam ler.
  • Contratos agrícolas ruins, superpopulação e doenças como a pellagra (da dieta só de polenta) e a cólera empurravam as famílias para fora.
  • Cerca de 9 milhões de italianos emigraram entre 1861 e a Primeira Guerra. Para o Brasil foram uns 215 mil em 1881–1890 e uns 580 mil em 1891–1900, o auge.
  • Fonte: Wikipédia italiana, "Emigrazione italiana".

Na nossa família: pobres e enjeitados

  • Os documentos italianos das duas famílias mostram essa pobreza:
    • Antonio Sant'Unione, pai do Henrique, era colono e analfabeto. Não sabia assinar o registro do filho em 1875. Mudou várias vezes de comune (Guiglia, Serravalle, Monteveglio, Savigno), como era comum entre colonos que trocavam de fazenda.
    • Giacomo Cantamessa e Eufrosina Baldis eram contadini (lavradores) em Valtesse, perto de Bergamo.
    • O pai da Camila Colombo era giornaliere e não sabia escrever.
  • O sobrenome Santunione vem da Santa Unione, a instituição de Modena que recolhia bebês abandonados. Era um sobrenome dado a enjeitados. Ver Sobrenome Sant Unioni e Enjeitados e a roda dos expostos.
    • Fato: Zenone Gaetano Santunione nasceu em Modena por volta de 1840, "da genitori ignoti". É enjeitado comprovado.
    • Hipótese: o próprio Antonio também foi enjeitado de Modena, criado por uma família de colonos nos vales do Panaro. Ainda não há prova. Ver Antonio Sant'Unione.
  • Ou seja: a linha Santunione começa, muito provavelmente, numa criança abandonada. Duas gerações depois, a família ainda vivia de trabalhar terra alheia. Emigrar com passagem paga era uma das poucas saídas.

Minas Gerais e a Hospedaria de Juiz de Fora

A vida na fazenda

  • Em Minas dominava a parceria: o colono cuidava do café e ficava com parte da colheita. Era em geral pior que o colonato paulista, que pagava um valor fixo por pé de café e mais a colheita.
  • O colono comprava no armazém da fazenda e muitas vezes ficava devendo ao fazendeiro.
  • Muitos largaram as fazendas e foram para as cidades, mudaram de estado ou voltaram para a Itália. Em 1920 restavam uns 30 mil italianos nas fazendas de café de Minas.
  • Fonte: Wikipédia, "Italian immigration in Minas Gerais".

Terreiro de secagem de café numa fazenda de São Paulo, com os trabalhadores e a casa-sede ao fundo, entre 1908 e 1919. National Photo Company, Biblioteca do Congresso dos EUA, Wikimedia Commons, domínio público.

O fim: Decreto Prinetti (1902)

  • Chegaram à Itália muitas denúncias de maus-tratos nas fazendas de São Paulo. O inspetor Adolfo Rossi confirmou isso num relatório.
  • Em 26/03/1902, a Itália proibiu a emigração subsidiada para o Brasil (Decreto Prinetti). Quem quisesse vir tinha de pagar a própria passagem.
  • Fonte: Wikipédia, "Prinetti Decree".

As famílias da árvore

  • Santunione (1897). Henrique Santunioni (Enrico), 22 anos, veio com a mãe viúva Domenica Caselli e o irmão Federico no vapor Colombo. Chegaram ao Rio em 23/09/1897 e entraram na Hospedaria de Juiz de Fora em 25/09/1897. Foram contratados por João José de Miranda para a Fazenda Miranda, em Manhuaçu, no café.
    • No mesmo navio vinha a família Bosi, com a futura esposa dele, Maria Borges Santunioni, então com 11 anos.
    • O Federico voltou para a Itália e morreu em Savigno em 1911.
  • Cantamessa (1897). Giacomo Cantamessa, Eufrosina Baldis e 8 filhos vieram no vapor Espagne e entraram na Hospedaria em 16/12/1897. Foram para a Colônia Antonio Carlos, do Barão de São Geraldo (S. José d'Além Parahyba, leitura provável).
  • As duas famílias vieram no auge da imigração paga por Minas (1894–1898), sem gastar com a passagem. Os registros e as imagens estão nas notas de cada pessoa.
  • Fonte: Arquivo Público Mineiro, Hospedaria de Imigrantes de Juiz de Fora, livro SA-925 (ficha Santunione, cid=13920; ficha Cantamessa, cid=16126).